“Vovô pedreiro” sem instrução dá show de conhecimento em Geografia

O homem curvado, martelando incessantemente as pedras para montar o mosaico português na calçada da Rua Frei Francisco Sampaio, no Embaré, em Santos, com aparência frágil e visivelmente humilde, tem muito a contar. Adejair Ipojucanfa Quinele, de 66 anos, conhecido como mineirinho dos mosaicos portugueses ou, vovô pedreiro, é dotado de algumas habilidades: sabe levantar guia, fazer pé de árvore, montar mosaicos e pode dizer absolutamente tudo sobre os 193 países do mundo.

Apesar da chuva e do vento forte, o senhor simpático não deixou de trabalhar nesta sexta-feira 13. O único momento de descanso, foi para responder as perguntas desta entrevista, a qual ficou muito feliz em conceder. Na breve conversa de 30 minutos, o homem marcado pelo trabalho pesado que executou durante toda a vida, revelou que seu maior sonho era aparecer na TV para falar sobre o que realmente amava. Há seis anos, fez uma participação no Domingo Show e foi desafiado a responder perguntas sobre mais de 150 países. Agora, em 2019, reencontrou a imprensa para relatar mais sobre sua história.

“Uzbequistão está localizado na Ásia, a capital é Tasquente, o país faz fronteira com Cazaquistão, o Tajiquistão, o Quirguistão, o Afeganistão e o Turcomenistão. A República Oriental do Uruguai, está localizada na América do Sul, faz fronteira com Paraguai e Brasil, acompanhado pelo Atlântico e capital é Montevidéu”, foi assim que ele iniciou essa agradável e rica conversa. Várias perguntas foram feitas a respeito de países diferentes do mundo e a todas, ele dava um show de conhecimento. Sempre respondendo com precisão, inclusive, sobre a moeda corrente em cada país. Entretanto, apesar do poço de conhecimento, é considerado invisível em meio à sociedade, já que são raras as pessoas que o olham, sabem de seu intelecto ou param para conversar.

Mineirinho nasceu em Uberaba, mas aos 15 anos, mudou-se para Santos visando uma oportunidade de trabalho. Na época, segundo ele, as calçadas de mosaico português eram famosas, então, “trabalho não faltava”, comenta. Conforme ia crescendo, se interessava cada vez mais por países.

“Antigamente, quando o Brasil ia jogar em outros países, ninguém divulgava nada. E eu queria saber o tamanho do Irã, por exemplo, a capital, a população, mas ninguém trazia informações. Isso só começou a ser divulgado com a chegada da internet. Mas eu nunca tive acesso. Na verdade, busquei conhecimento nos livros e meu professor foi Deus. Me apaixonei pela Geografia e andava com o livro em uma sacola, sempre conciliando os estudos com trabalho braçal”.

No começo, seu maior objetivo era aprender as capitais. Depois, isso não foi o suficiente e quis saber mais sobre área, população, cidades, oceanos e fronteiras. “Para reforçar o que eu aprendia, pedia às pessoas que me fizessem perguntas. E eu as surpreendia com as respostas, porque ninguém esperava que eu soubesse tanto. Quer dizer, no geral, eu não sei nada, mas para alguém sem estudos, sei muito”, disse.

Com o passar do tempo, a vida não foi generosa com ele. A quantidade de trabalho foi diminuindo e passou a ir de prédio em prédio à procura de extras. Seu consolo para as dificuldades era na leitura: “já morei em pensões diferentes, na Praça da Independência, já precisei de ajuda para passar o mês. Já chorei muito em cima dos livros”.

Mineirinho não tem família em Santos. Seus parentes estão distribuídos em Uberaba, Ribeirão Preto e Goiânia. Com a solidão, falta de trabalho e por não ter para quem recorrer, hoje, mora em uma pensão. “Estou velho, não tenho aposentadoria e se adoecer, sei que estou morto.

Passei cinco meses tentando trabalho e não consegui. Sobrevivi com o dinheiro de doações do meu irmão, porque estava devendo aluguel e o lugar onde almoço. Tentei pedir ajuda a outras pessoas, mas ninguém tinha. Até quando posso viver assim? Meu irmão também é pobre. Já quebra meu galho demais”, desabafou.

A tristeza de não aguentar tantos serviços, viver com medo de ser despejado e lutar todos os dias por comida, faz com que o homem evite falar com a família. De acordo com ele, sabe que se falar para o irmão a situação na qual se encontra, receberá dinheiro e isso não o deixa confortável. “Ele já falou para eu voltar para Uberaba, mas amo Santos. Sou teimoso demais para isso, mas não existe nada pior do que depender de alguém, pois poucas pessoas se preocupam em fazer algo por ninguém. Trabalho em porta de prédios há anos. Ninguém oferece um café, nada. Mas cigarro e cuspe na cabeça, você ganha”, contou.

Para contratar o senhor e ajudá-lo a continuar na cidade, basta ligar no telefone (13) 99736-5318 depois das 20h e falar com mineirinho. Quer quiser connhecê-lo pessoalmente pode procurá-lo na Joaquim Távora, 410 bairro Marapé, em Santos e se preparar pra ouvir muita informação e conhecimento gratuitamente.

 

Por Noelle Neves

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